Dia a dia

Huaraz, Trekking de Huayhuash

30 de September de 2016

Contei no post anterior como foi nossa chegada em Huaraz e também o nosso trekking de 4 dias na Trilha Santa Cruz. Depois de voltar ficamos 2 dias na cidade descansando e nos preparando para a próxima aventura, Huayhuash.

A cidade de Huaraz está bem preparada para o turismo, a única dificuldade que tivemos e não conseguimos resolver foi o aluguel de roupas de montanha. Estava certa que lá poderíamos fazer isso, ainda mais nós que não viajamos – e nem temos – com roupas adequadas para a alta montanha.

O Scheler, dono da agência pela qual fizer a trilha, nos ajudou e muito com isso. Emprestou casaco de penas para quem não tinha (foram 5), botas de trekking (1) e polainas (6 pares). Dessa vez iríamos em 6 pessoas, eu, Marcos, Vandeira, Sandra – eu a apresentei no post anterior –  Eva, uma polonesa que vive no Brasil, e o Milton, amigo de escalada do Vandeira.

Na noite anterior da saída arrumamos nossas coisas, agora tivemos direito a 10 kg cada um. Mais tempo na trilha remota, mais coisas precisamos levar. No pacote que pagamos estava incluso as mulas e arrieros, cozinheiro, guia, barracas, isolantes e alimentação (café da manhã, almoço, jantar e lanche).

Trekking Huayhuash

Dia 1 

Acordamos às 4:40, o combinado era se encontrar na recepção do Hotel Casa Blanca (onde estávamos hospedados) às 5h e às 6h deixamos a cidade. O caminho até o primeiro camping, o Caurtelwain (4.180m), seria apenas de carro, aproximadamente 6h de carro, lá almoçamos e tivemos tarde livre. Fizemos uma pequena caminhada de 1h para aquecer um pouco.

Carro que nos levou até 1º acampamento

Carro que nos levou até 1º acampamento

Vista da caminhada do Camping Caurtelwain (4.180m)

Vista da caminhada do Camping Caurtelwain (4.180m)

Durante o dia a Cristina, nossa guia, conversou conosco sobre como seria o dia seguinte e ficou o horário de saída. Depois de organizar nossas coisas na barraca ficamos aproveitando o dia, que estava bonito, lendo, fazendo fotos e o principal, descansando para os próximos dias.

Dia 2 

Durante a noite choveu um pouco e essa será a previsão dos próximos dias, alguns dias de sol entre nuvens e grandes possibilidades de chuva.

O despertador tocou às 4h40, o combinado é de guardar tudo e deixar para fora da barraca antes de sair para o café da manhã, e assim foram todos os dias. Outra coisa que aconteceu em todos os dias foi a Cristina trazer um mate de coca na porta da barraca e depois um bacia com água quente para nos lavarmos. É muito luxo, não!? Eu e o Marcos adoramos! E pontualmente às 6h todos estavam na barraca de café da manhã (ovos mexidos, pães, café e leite).

O dia amanheceu muito bonito, o que nos dava ânimo para caminhar, mas a previsão de chuva no fim do dia continuava. Começamos o caminho de hoje às 6h40, o dia prometia ser bem longo e com a travessia de 2 passos, um de 4.700m e outro com 4.650m.

Após 2h de uma caminhada tranquila encontramos o 1º passo (4.700m ), para mim não foi o mais difícil, mas também não foi fácil. Caminha acima dos 4 mil é bem diferente, não estávamos acostumados. A subida era curta, mas bem íngreme. Depois de subir ficamos lá em cima um pouco, contemplando e descansando. Ainda tínhamos um longo caminho por aqui.

Passo 4.700m

Passo 4.700m

A descida foi um pouco chata, o outro lado da montanha também era bem íngreme, descemos devagar e alcançamos uma cruz. Um marco para lembrar que um Polones que morreu naquela montanha. Ele sofreu de mal de altura, na verdade ele foi para a montanha bem doente e lá em cima a coisa só piorou.

A caminho do 2º passo

A caminho do 2º passo

Descemos até os 4.100m, onde estava o nosso primeiro posto de controle, o dia seguia bonito e caminhamos para o 2º passo (4.650m). O caminho menos íngreme era mais longo e para mim mais cansativo. Todos seguíamos bem, caminhamos em um bom ritmo, cada um no seu passo.

A vista desse passo é incrível demais, tivemos uma bela janela de tempo e pudemos observar o Siulla Grande e sua imponência. Estar tão perto das montanhas é incrível, mas nesse trekking, por caminharmos nas alturas, parece que estamos mais perto ainda.

Suilla Grande

Suilla Grande

Descemos poucos metros do passo e tivemos uma grande surpresa, era ali que almoçaríamos. Ah, que demais! Que vista, que dia! O almoço foi delicioso, Chaufa (não sabe o que é, dá uma lida aqui), tudo lindo para um segundo dia, mas a chuva parecia nos acompanhar, então aceleramos um pouco para chegarmos seco no acampamento.

Nosso almoço e a vista, lindo demais!

Nosso almoço e a vista, lindo demais!

Chegamos no camping Caruacocha às 14:40, foram 8h de caminhada, fizemos um bom dia e tivemos a tarde livre, mas dentro da barraca, pois a chuva chegou. Acampamos ao lado de uma linda laguna, mas o tempo fechou bem do final do dia. O jantar foi servido às 19h.

Dia 3

Esse foi o dia mais difícil para mim, por não ter jantando ontem (acho que a Chaufa não me caiu bem) e mal ter tomado o café da manhã, senti muito cansaço, principalmente na travessia do passo. A noite foi boa, consegui dormir bem e às 6:45 saímos para caminhar.

O mais belo amanhecer que tivemos

O mais belo amanhecer que tivemos

O dia não foi longo, mas quando vi qual seria a subida do passo (4.830m) me deu até desespero, era bem íngreme. O cansaço bateu e o ar faltou. Foi preciso para algumas vezes, tentar respirar e se concentrar para deixar o ar entrar nos pulmões. Quase me desesperei, mas no fim ficou tudo sob controle, não foi fácil. Foi um momento de respeitar o lugar onde eu estava e descobrir o meu ritmo.

Antes de cruzar o passo fizemos uma pausa, há um lindo mirador no meio do caminho, e de lá é possível ver 3 lagunas. Cada uma de um tamanho e com uma cor diferente. Depois de descansar era preciso encarar mais um pouco de subida e aí sim chegar no passo, onde almoçamos.

Quando cheguei lá em cima, demorei uns 5 min para conseguir reparar na vista, eu precisava sentar, descansar e respirar. Ficamos por lá uns 30 min. Um vista incrível, um lugar lindo.

A descida foi mais tranquila e às 14:30 chegamos no Camping Huayhuash (4.350m), caminhamos por 8h e logo a chuva nos alcançou. As barracas já estavam montadas, foi o tempo de chegar, pegar nossas coisas (as que as mulas carregam) e entrar na casinha. Choveu e por conta da nossa altitude, nevou. Ficou tudo branquinho e fez um pouco mais de frio. Dormimos.

O jantar foi servido às 18:30 e com o tempo que estava fazendo (frio e chuva), não ficamos muito tempo papeando. Cada um foi para a sua barraca. Durante a noite a nossa barraca condensou muito e começou a pingar dentro. Logo peguei uma meia suja e sequei o que dava, o bom é que já era quase hora de levantar.

Dia 4

Esse dia foi mais curto, então a Cristina decidiu sair às 7h do camping, pudemos dormir um pouco mais… uns 30min. rsrsrs O passo de hoje era de 4.750m, mas foi muito tranquilo, quando vimos já havíamos cruzado. Nem parece que no dia anterior eu quase morri (sim, fui muito exagerada agora), mas o que pegou nesse dia foram as dores na panturrilhas.

Mesmo sendo um dia curto, as pernas sentiram os dias anteriores, nossa,  tive que parar algumas vezes para alongar coxa e panturrilha. A essa altura em nem sentia meu joelho (aquele operado e velho de guerra).

E para surpresa de todos chegamos às 11:30 no acampamento. Sabíamos que seria um dia curto, mas foi curto demais. Fizemos um bom ritmo e logo chegamos no Acampamento Viconga.

A parte mais esperada desse dia, sem dúvida, era o banho nas termas. Sim, ao lado desse camping tem as termais. Ah, que delícia.  São três piscinas, sendo a primeira para se lavar, pode usar sabonete e shampoo. A segunda e terceira são apenas para relaxar, a última com uma temperatura mais agradável. Ficamos lá o recomendado, não mais que 40min.

Saindo da termas já era quase hora do almoço, o sol deu espaço ao granizo que caia e esfriava o dia. Almoçamos, conversamos e fomos descansar. Entramos na barraca e dormimos. O tempo não estava muito bom para ficar lá fora.

O Marcos não acordou nada bem, enjoo e dor de barriga. Na hora  do jantar ele não comeu nada, todos ficamos bem preocupados, pois quando esta na montanha é preciso se alimentar, comer nem que for o mínimo para ter forças. Mesmo parados gastamos energia, estamos em altitude e isso faz nosso corpo reagir de outra forma. É preciso se alimentar. A Cristina ficou bem preocupada com o fato dele não comer nada, mas ainda bem que no dia seguinte ainda tivemos o cavalo de segurança nos acompanhando, o Marcos poderia subir com ele.

A noite foi bem agitada, acordei o Marcos algumas vezes para que ele tomasse água e comece alguma coisa. Os meninos ajudaram com alguns remédios para a diarréia, mas não resolveu muito. O corpo precisava de tempo para se recuperar.

Dia 5

Depois do dia de ontem acordei preocupada com o Marcos, na verdade mal dormi. Ele não acordou melhor e não conseguiu tomar o café da manhã e ficou decidido que ele seguiria até o Passo Cuióc (5.000m) a cavalo. Sim, por segurança e para poupar energia ficou decidido assim. Ele não queria, claro, mas era bom descansar o corpo ainda mais que não estava comendo.

Seguimos caminhando, e após 1h andando morro acima a Sandra começou a passar mal. Entrou em pânico, teve falta de ar e já estava há alguns dias tossindo muito. Bom, quando olhei para trás vi que o Marcos caminhava e a Sandra que estava no cavalo.

A caminho do Passo Cuióc (foto: Milton Sato)

A caminho do Passo Cuióc (foto: Milton Sato)

As coisas pareciam não estar muito boas. Esperei o Marcos e fomos juntos caminhando, devagar e um passo de cada vez. O Vandeira já tinha ida na frente, queria fazer fotos e chegou no passo em pouco mais de 1h. Nós o alcançamos em 2h40. Eu cheguei bem, nem parecia que estava caminhado a 5mil m. O Marcos chegou caminhando, super emocionado com o feito que fizemos.

Nós no Passo Cuióc

Nós no Passo Cuióc

Enquanto estávamos lá em cima comemos algumas coisas, fizemos fotos de todos. Era muita alegria, mas ao mesmo tempo preocupação. Sandra seguia mal e Marcos fraco e sem fome, isso não era bom e com a altitude nada melhorava. Ali mesmo, no passo, começamos a falar da possibilidade de descer os dois para o povoado (3.000 m). Ficamos tensos, ninguém queria deixar a trilha no meio do caminho, mas essas coisas acontecem.

A descida do passo é bem chata, muitas pedras e bem inclinada. Nessa etapa todos andam, ninguém pode ir no cavalo. Caminhamos devagar até chegar ao acampamento Guanac Patay (4.500m). Almoçamos por volta das 14h, uma sopa, o Marcos conseguiu comer um pouco e fomos descansar. Chovia e fazia sol, um tempo que mudava a todo instante, mas pelo menos chegamos secos aqui. Caminhar na chuva seria um desgaste maior.

Certas coisas só acontecem quando tem que acontecer. Estávamos a algumas horas de caminhada para chegar em um povoado, porta de entrada e saída da trilha. No jantar, Marcos seguiu sem fome e a tosse de Sandra piorou. Cristina, em conversa e consenso de todos, ficou decidido que Sandra, Marcos e eu desceríamos com ela até o povoado para passar a noite em uma altitude menor, para quem sabe seguir viagem. Os demais, Vandeira, Eva e Milton seguiriam o caminho de Huayhuash com o Pancho.

Eu estava super bem, queria continuar, mas sem o Marcos não faria sentido. Sem falar que não teria como eu seguir sem saber que ele estava bem, se tinha chegado bem. Não pensei duas vezes em descer com ele no dia seguinte.

Dia 6

A noite não foi das piores, acordei com frio, mas logo comi algo e voltei a dormir. Marcos acordou ainda mal, estômago estranho, sensação esquisita e sem fome. Mal sinal.

Nós 4 deixamos o acampamento às 7h, os demais teriam esperar que Pancho e o os arrieros guardassem tudo para seguir ao passo Santa Rosa (5.100m). O Marcos saiu sem tomar café da manhã direito. Caminhamos por 2h e paramos para um lanche. Ainda tivemos mais 3h de caminhada até o povoado de Huayllapa.

O caminho era muito bonito e o dia esta de sol e sem nuvens. Ficava imaginando como estava bonito a passagem do passo, as montanhas e tudo. Passamos por uma linda cachoeira que descia rumo ao povoado, quebrando o vale. Linda!

Nos últimos 30min o Marcos estava muito exausto, as pernas bambas e caminhava bem devagar. Paramos de novo.

No povoado ficamos na Bodega Sol de Yerupajá, a dona foi muito atenciosa conosco e nos ajudou muito. O Marcos estava decidido a sair de lá, queria voltar para a cidade, em um momento na trilha até pediu por praia. Achei que ele estava delirando, mas estava sem febre. Marcos pedindo praia é algo bem raro.

Nós decidimos deixar a trilha, era melhor, pois não sabíamos o que ele poderia sentir lá em cima, melhorar seria difícil, mas ficar pior seria bem fácil. Não quisemos arriscar. Sandra estava decidida a seguir viagem, subiu para seu quarto e foi descansar. Nós e a Cristina ficamos na tentativa de conseguir um carro para irmos embora.

Sair dessa região e chegar em Huaraz leva 2 noites. Não é simples e não há carros sempre, mas conseguimos voltar em 1 noite. No mesmo dia que chegamos no povoado conseguimos uma van por 20 soles cada para nos levar até a cidade mais próxima, Cajatambo, saímos às 19h e foram 2h de viagem.

Em Cajatambo pagamos pela passagem até Pativilca, a senhora da Bodega havia feito uma reserva para nós, o que garantiria nossa saída de lá no dia seguinte. Passamos a noite em uma hospedagem bem simples e seguimos na manhã do dia seguinte para Pativilca, em ônibus. Uma viagem que foi mais cansativa do que 5 dias de trilhas.

Depois de 5h30min desembarcamos em no Posto de Pativilca, e de lá saiam muitos carros que fazem o trajeto a Huaraz. Foram mais 3h30min de viagem até nosso Hotel. Chegamos cansados e o Scheler já sabia da nossa chegada. Estava preocupado.

O dia foi longo, um cansaço físico e psicológico. Algo que nunca havia nos passado e dessa aventura tiramos algumas boas experiências e aprendizado. Agora é descansar e se recuperar, pois nossa viagem continua, não voltamos para casa na semana que vem… Estamos a caminho de casa e há um longo caminho para percorrer.

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